O Tritão da Pena: o monstro entre a terra e o mar

À entrada do Palácio da Pena há uma criatura difícil de ignorar.
Tem forma humana, pertence ao mundo marinho e parece nascer da própria arquitetura. Entre corais, conchas, raízes e videiras, o Tritão observa quem atravessa uma das passagens mais extraordinárias do palácio.

Mas o que faz um monstro marinho no alto da Serra de Sintra?

Quando D. Fernando II adquiriu, em 1838, o antigo Mosteiro de Nossa Senhora da Pena, iniciou a transformação do edifício na residência romântica que hoje conhecemos. A Pena nasceu precisamente dessa combinação de referências: o antigo e o novo, o religioso e o fantástico, diferentes épocas, estilos e geografias reunidos num projeto profundamente romântico.

É nesse universo que encontramos o Tritão.

A figura ocupa o pórtico que antecede o chamado Terraço do Tritão. E a própria arquitetura constrói uma passagem entre dois mundos.

Na parte inferior está a água: o arco neogótico é coberto por formas de coral e conchas. Sobre uma delas surge o Tritão.

Acima começa a terra: da cabeça da criatura nasce uma árvore e as videiras estendem-se em torno da janela que ele parece sustentar. A interpretação apresentada pelo próprio Palácio da Pena identifica precisamente esta divisão entre mundo aquático e mundo terrestre.

O Tritão não está simplesmente pousado numa fachada. Ele é a própria transição. Água em baixo. Terra em cima.

Corais e conchas transformam-se em vegetação. O corpo monstruoso fica suspenso entre os dois universos. E é aqui que a imagem se torna ainda mais interessante.

A chamada Porta dos Corais, ou “árvore das águas”, tem sido interpretada também através da oposição entre vida e morte. A árvore remete para a vida; as águas profundas podem sugerir a morte, mas são simultaneamente lugar de origem e nascimento. As raízes que emergem dos cabelos do Tritão participam nessa mesma ambivalência: aquilo que parece inquietante também anuncia crescimento e renovação.

Talvez seja por isso que esta criatura seja simultaneamente assustadora e fascinante.

E é aqui que a história ganha uma camada inesperada.

Os tritões não chegaram à região de Lisboa e Sintra apenas com o romantismo do século XIX.

Séculos antes, já circulavam relatos sobre seres marinhos extraordinários nesta costa.

Plínio, o Velho, no século I, registou a notícia de que habitantes de Olisipo teriam comunicado ao imperador Tibério que um tritão fora visto e ouvido numa gruta da costa. No mesmo relato surgem também nereidas, descritas com escamas até na parte humana do corpo.

Muito mais tarde, no século XVI, Damião de Góis voltou a registar tradições relacionadas com “homens marinhos” ou tritões na região de Sintra e do Cabo da Roca.

E a tradição local acabaria por conservar histórias de criaturas vindas do mar, associadas às grutas e à costa de Sintra.

Aqui é importante distinguir o que sabemos daquilo que gostaríamos de saber.

Temos uma criatura marinha no Palácio da Pena. Temos antigas narrativas de tritões na região. Temos a costa atlântica de Sintra muito próxima e um rei profundamente interessado no fantástico, na natureza e no imaginário romântico.

Mas não encontrámos documentação que permita afirmar que D. Fernando II mandou representar este Tritão especificamente por causa dessas lendas locais.

Portanto, é uma hipótese, não um facto.

Estamos perante muito mais do que uma criatura extravagante numa fachada.

O Tritão reúne mar e terra, vida e morte, natureza e arquitetura. Pertence à mitologia clássica e, ao mesmo tempo, encontra-se numa paisagem onde histórias sobre seres marinhos circulavam havia séculos.

No alto da Serra de Sintra, longe do mar e aparentemente fora do seu lugar, talvez seja precisamente isso que o torna tão poderoso:

o Tritão habita uma fronteira.

Entre aquilo que conhecemos e aquilo que imaginamos.

Entre a história documentada e as histórias que continuamos a contar.

E, da próxima vez que passar por ele na Pena, talvez já não veja apenas um monstro.

Talvez pare um pouco mais.

E olhe outra vez.

Já conheces o Palácio Nacional da Pena?

Um dos grandes ícones do Romantismo em Portugal, o Palácio da Pena nasceu da transformação de um antigo mosteiro por iniciativa de D. Fernando II. Na sua arquitetura cruzam-se referências, épocas e imaginários muito diferentes.

Já viste no Terraço do Tritão?

  • É aqui que se faz a entrada para o chamado Palácio Novo.
  • O pórtico está dividido entre dois mundos: em baixo, corais e conchas evocam a água; em cima, árvores e videiras anunciam a terra.
  • E, entre ambos, está o Tritão.

E os corais?

  • Não são apenas decoração.
  • Os corais, as conchas, a árvore e as videiras fazem parte de uma composição em que arquitetura e natureza parecem transformar-se uma na outra.
  • Vale a pena parar e procurar cada um destes elementos na fachada.